O Liceu de Camões


“Edificado em apenas dois anos, entre 1908 e 1909, o Liceu de Camões foi o primeiro liceu moderno de Lisboa, promovido pelo Estado no âmbito de uma política de fomento do ensino secundário de que resultou também a conclusão do Liceu de Passos Manuel e o projecto do Liceu de Pedro Nunes, este igualmente da autoria de Ventura Terra.

“Do conjunto destas três obras, terminadas sensivelmente na mesma época, o Camões é a peça mais moderna pela desenvoltura da planta, a qualidade dos equipamentos e a sobriedade da composição das fachadas. Inscrevendo-se num alongado rectângulo, secciona-o em três outros, o central ocupado pelas áreas administrativas e os refeitórios à volta do grande ginásio, os laterais dispondo as salas de aula e os pátios cobertos em redor dos recreios.

“A generosidade dos espaços de convívio e de exercício físico era uma novidade absoluta em Portugal, bem como a existência de salas próprias para as disciplinas científicas, todas elas bem dimensionadas e dispondo de ampla iluminação natural. Manifesta-se assim a maturidade funcionalista do arquitecto que soube interpretar e estimular um programa escolar ambicioso e actualizado, modelo para o mesmo tipo de estabelecimentos durante quase todo o século.

“A relação com a envolvência urbana foi também marcante nesta obra de Ventura Terra: implantada no então largo do Matadouro municipal, e tendo próximo a Escola de Veterinária, relacionava-se com estes equipamentos oitocentistas por uma continuidade da composição arquitectónica classicista, serenamente modulada pelo ritmo das alturas dos vários blocos e a disposição simétrica dos vãos. Os influxos decorativos reduzem-se à discreta modulação das aberturas, dinamizadas, no corpo central mais elevado, pelas vergas arqueadas, e, nos laterais, pela interrupção, redonda também, da cimalha, desenhando frontões inscritos.

“Globalmente, o edifício impõe-se fechado ao exterior, com impositiva volumetria, assumidamente monótona, iludindo a amplidão e abertura dos espaços internos que têm a sua máxima expressão no ginásio que une os dois pisos, apresentando uma cobertura de aparato técnico, em ferro e vidro.

“Os valores de funcionalidade expressos na leitura do espaço interior do Liceu de Camões, não ignorando a nota de sobriedade decorativa que a fachada principal testemunha, constituirão factores de referência em programas futuros dessa natureza, de que será exemplo maior a adopção quase normativa da sua planta durante boa parte do século XX.”

 

Paulo Martins, in Parecer para
“Eventual classificação do antigo Liceu de Camões”
(para IPPAR, 05.06.2006)



2009 - Lyceu Camões, Cem Anos a Aprender